Mensalão da Nina

19 de setembro de 2012

O José Dirceu prometeu não fugir do país. A Nina bem que tentou recomeçar na Califórnia, mas foi pega antes e acabou no xadrez. Tudo armação da Carminha. Mas, por sorte ou azar, o Tufão, que hoje vive uma bonança como nunca antes e baba na gravata pela donzela estava por perto. Peraí… Donzela?
Porque nesta “Avenida Brasil” é assim: mocinha rasga cartilha, chafurda mão e corpo todo na lama em nome da justiça e da bufunfa. Pelos cálculos da Nina, uma lancha pro vale-nada do Max sai barato. Um flat em Copa pro imundo do Nilo tá em conta. Pra ela conquistar os seus “objetivos nobres”, qualquer milhão é pouco. A empregada não descolou, enfim, o seu merecido aumento e tá comprando eletrodoméstico, fazendo reforma, recebendo a patroa em casa? Além do que, tudo é pago com aparentemente inesgotável grana do Tufão, que não sabe ou faz que não sabe desse mensalão do demo que corre solto pelo Divino.
Podia ser qualquer mera coincidência não baseada em fatos reais. Ou apenas uma bem-vinda metáfora sobre as relações entre ex-querdas e (in)direitas brasileiras e o fim das utopias. Mas quando o advogado Paulo Sérgio Abreu (que defende Rogério Tolentino, acusado de integrar o esquema com Marcos Valério) classificou, em pleno julgamento no STF, a denúncia do Ministério Público como “roteiro de novela”, fez mais do que dramatizar. Vestiu a carapuça. Clique aqui.
O fato é que essas histórias já se esticam demais e a Nina passou dos limites faz tempo. As eleições serão no domingo do próximo dia 7. O último capítulo da novela será cerca de uma semana depois, no dia 19. Como sempre, o expediente continua. E sem muitas perspectivas de qualquer final feliz.

p.s.: Coincidentemente, o título da coluna do Ruy Castro, publicada hoje na Folha de S. Paulo é “Justiça à TV”. “Assistir ao julgamento do mensalão é um pouco como acompanhar a novela”, começa.

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Enfim

18 de agosto de 2010

já é quase chegada

a hora em que daremos risada

dos carros atolados

na estrada.

Perdão

18 de agosto de 2010

Foto de Sissy Eiko

Éguas passadas

almas rasgadas

o prato quebrado no chão.

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Águas passadas

roupas lavadas

a comida guardada no fogão.

.

Roupas passadas

almas lavadas

o sofá na frente da televisão.

.

poema-minancora do dia

14 de junho de 2010

Tenho uma folha branca

e limpa à minha espera:

mudo convite

tenho uma cama branca
e limpa à minha espera:

mudo convite

tenho uma vida branca
e limpa à minha espera:

(Ana Cristina César, 5/2/69)

Poema novo para tema antigo

26 de maio de 2010

i.

o que mais além dessa voz de sorvete
de chocolate (o preferido de Alejandro)
teria tanto gelo e tanto
verão?
um exército soviético no Caribe?

Ilha no Atlântico, agora
choramos o óleo derramado
e brigaremos até que os fuzis –
enferrujados – não soprem mais balas;
e então e por fim, desfrutaremos da brisa
e dos sorvetes
de chocolate.

Tetrapharmakon

4 de abril de 2010

 

Inscrição da receita médica para a alma, gravada por Diógenes, na Turquia

No século 19, alguns arqueólogos descobriram na Turquia os restos de uma muralha, com uma inscrição. Dela constavam trechos de ensinamento que Diógenes, discípulo de Epicuro, gravou para disponibilizar a todos quantos passassem por ali, fosse homem, mulher ou criança, de qualquer nacionalidade, o que seria um resumo da sabedoria humana em quatro frases. Essa “prescrição médica para a alma” é chamada tetrapharmakon:

“Não há o que temer quanto aos deuses.
Não há nada a temer quanto à morte.
Pode-se alcançar a felicidade.
Pode-se suportar a dor.”

Epicuro, século 3 antes de Cristo

gula

4 de março de 2010

Obsessão

como muito pão de mel
como como como
pacman cor-de-rosa
não vivo sem você
acordo à noite pra comer
minhas pílulas rosadas
enamoradas
até enjoar
não posso mais ver
não quero mais ver
agora é pão de queijo
meu amor é pra você
foi redirecionado

de Elisa Andrade Buzzo

tempo (falta de)

4 de março de 2010
cumulus, de Leonardo Ramadinha. C-print.

cumulus, de Leonardo Ramadinha. C-print.

“Puts, problema? Quem não tem? Problema de falta de tempo é um, não é? rs Problema de traduzir o que temos passado para palavras também. Mulheres biônicas, mega mulheres. Cabelo, pelo, tpm, unha, peso, estudo, homem, trabalho, caral… ops. Pode ser uma rima como essa? rs”

O meu tempo

O meu tempo não é o seu tempo.
O meu tempo é só meu.

O seu tempo é seu e de qualquer pessoa, até eu.

O seu tempo é o tempo que voa.
O meu tempo só vai onde eu vou.

O seu tempo está fora, regendo.
O meu dentro, sem lua e sem sol.

O seu tempo comanda os eventos.
O seu tempo é o tempo, o meu sou.

O seu tempo é só um para todos,
O meu tempo é mais um entre muitos.

O seu tempo se mede em minutos,
O meu muda e se perde entre outros.

O meu tempo faz parte de mim,
não do que eu sigo.

O meu tempo acabará comigo
no meu fim.

Arnaldo Antunes

poema-minancora do dia

3 de março de 2010

Baladeta à maledeta

ó vida, minha vida linda
já te botei muito band-aid
já te dei muita colher de chá
muito pão-de-ló
agora só te darei veneno
                          
                                         on the rocks

Fabiano Calixto (Garanhuns, 1973)
In Sangüinea

toilet du jour, de Ramon martins

cheque devolvido

3 de março de 2010

1,99 Real. Manipulação digital e tinta sobre papel de Louise Xavier.

o problema dispensa explicações. engula, pois, este poema*:

Tinha uma pedra no meio do caminho.

No meio do caminho tinha uma pedra.

Como não sou Drummond,  fumei ela.

 

* do poeta maloqueirista Berimba de Jesus.